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Comportamento

“Anora”: os méritos do filme vencedor do Oscar

O filme de Sean Baker tem como pano de fundo o universo das profissionais do sexo, mas sem moralismo

Por Analice Gigliotti
6 mar 2025, 12h40
Imagem de cena da atriz Mickey Madison no filme "Agora".
"Anora": filme acerta ao retratar a vida de profissionais do sexo de forma absolutamente normal, corriqueira, sem glamourização ou preconceitos.  (Divulgação/Reprodução)
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A noite de entrega do Oscar saiu com um filme absolutamente consagrado. “Anora”, o longa-metragem de seis milhões de dólares – baixo orçamento para o cinema americano – desbancou as grandes produções de Hollywood e faturou os prêmios de melhor filme, melhor direção, melhor roteiro original, melhor montagem e melhor atriz, para Mikey Madison. O nome por trás do fenômeno é Sean Baker, jovem cineasta independente americano, que já tinha chamado a atenção com filmes como “Tangerine” e o delicado “The Florida Project”, explorando as mazelas dos americanos que vivem marginalizados nas cercanias dos parques da Disney, vizinhos ao sonho americano, mas fora deles. É emocionante.

Agora, Baker fura a bolha dos filmes “cabeça” e abocanha os principais prêmios da indústria cinematográfica. O reconhecimento é justíssimo. “Anora” explora de maneira sensível as (des)ilusões de uma garota de programa nas imediações do Brooklyn. A profissional do sexo sem grandes ambições na vida que, de repente, vê a possibilidade de um novo futuro ao lado de um jovem milionário – que ela descobrirá, com o tempo, ser um moleque irresponsável.

Uma das coisas mais bonitas no filme de Baker é como ele retrata a vida de profissionais do sexo de forma absolutamente normal, corriqueira, sem glamourização ou preconceitos. No entanto, como tudo hoje em dia, as opiniões racharam. Há quem ache que a trama “prostituta salva por um playboy” não apenas está gasta como se tornou machista – ainda mais em um filme escrito e dirigido por um homem.

O que as pessoas não se atentam é que o rapaz não é um príncipe encantado que chegou para salvá-la. Sequer há amor naquela relação. Sim, Anora se afeiçoa ao menino, mas está longe de ser uma relação baseada em sentimentos concretos. Para ela, pode ser uma chance real de fazer uma grana e mudar de vida. Mas para o garoto, ela jamais a percebe como uma mulher de verdade – o que só vai acontecer no final do filme (sem spoiler) de uma maneira muito bonita e delicada (de novo, houve quem criticasse o resgate da personagem por outro homem…). Todas estas percepções são válidas porque, em tempos de discursos inflamados, acabamos deixando de lado que o objetivo da obra de arte é justamente esse: levantar discussões (independente se é um filme de um homem ou de uma mulher).

Outro dado curioso de “Anora” é que ao explorar o mundo que cerca a prostituição, invariavelmente esbarra em elementos como bebidas alcoólicas, uso abusivo de substâncias e violência, no entanto, sem a pretensão de ser didático ou moralista, tendo como pano de fundo aquele universo de excessos, prazeres fugazes e luxúria de Nova York e Las Vegas.

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Sean Baker gosta de fazer do seu cinema um retrato da sociedade americana contemporânea. “Anora”, uma personagem que luta por seus objetivos, ainda que eles não sejam os mais nobres, é uma excelente provocação no novo mundo regido pelo autoritarismo de Trump.

Analice Gigliotti é Mestre em Psiquiatria pela Unifesp; professora da PUC-Rio; chefe do setor de Dependências Químicas e Comportamentais da Santa Casa do Rio de Janeiro e diretora do Espaço Clif de Psiquiatria e Dependência Química.

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