“Cérebro deteriorado”: expressão é escolhida a “palavra do ano”
Uso excessivo de vida digital seria a razão para a sensação de exaustão mental

Já é uma tradição. Com a chegada de dezembro, a Oxford University Press escolhe uma palavra que simbolize o ano que se encerra, que traduza as conversas e o espírito que dominaram os últimos 12 meses. A expressão-síntese de 2024, segundo os ingleses, é “brain rot”, algo traduzido livremente como “cérebro podre”. A expressão é comumente utilizada para descrever os danos mentais causados pela sobrecarga digital.
De acordo com Oxford, o primeiro registro da expressão “cérebro apodrecido” data de 1854, no livro “Walden ou A Vida nos Bosques”, de Henry David Thoureau, sobre a vida isolada em uma cabana na floresta. “Enquanto a Inglaterra tenta curar a podridão da batata, será que qualquer esforço para curar a podridão do cérebro, que prevalece de maneira muito mais ampla e fatal, será igualmente válido?”, questionou Thoureau em sua obra.
Mal poderia imaginar ele que, quase 200 anos depois, o trecho do seu livro apadrinharia um comportamento cada vez mais disseminado na sociedade ultraconectada do século XXI. O uso da expressão “cérebro podre” ou “cérebro deteriorado” apenas confirma a vertiginosa velocidade das mudanças impostas pelas redes sociais.
Ainda segundo Oxford, o termo “cérebro podre” é usado por jovens nas redes sociais para descrever o que chamam de “deterioração do estado mental ou intelectual de uma pessoa” devido ao consumo excessivo de conteúdo trivial online. A instituição inglesa afirma que o aumento é da ordem de 230% em todo mundo, apenas no último ano.
No Brasil, não é diferente. Pesquisa recente concluiu que somos a segunda nacionalidade mais conectada à internet, uma média de nove horas e treze minutos de consumo ao dia, perdendo apenas para a África do Sul. O Brasil também aparece em terceiro lugar mundial no tempo gasto exclusivamente em redes sociais, com os usuários dedicando em média três horas e trinta e sete minutos diariamente. Os brasileiros ocupam ainda a quinta posição quando a avaliação é por tempo de uso do Instagram (plataforma utilizada por 78% dos brasileiros adultos).
Com a entrada dos sites de bets nas redes e seus muito subterfúgios que induzem às apostas, dobra-se o perigo: além da adição à tecnologia, agora também é preciso estar atento à mais uma forma de dependência em jogos, que se multiplicam nos aparelhos celulares, tudo a apenas um click de distância.
O desgaste do cérebro pelo uso excessivo de tecnologia pode levar a diversas consequências danosas, como a perda de pensamento crítico, a redução de foco, aumento do isolamento social e de quadros ansiosos e depressivos. Para evitar se chegar a esse ponto, é preciso estimular experiências não virtuais, como a prática de esportes e de hobbies (tocar um instrumento, ler, ouvir música ou ir ao cinema, por exemplo), além de usar as redes sociais com parcimônia, por tempo determinado.
A Universidade de Oxford indicou a expressão de 2024, mas, a menos que haja uma mudança drástica no comportamento das famílias, e se implantem políticas públicas eficientes, tudo leva a crer que os “cérebros podres” ainda permanecerão entre nós por muitos anos pela frente.
Analice Gigliotti é Mestre em Psiquiatria pela Unifesp; professora da PUC-Rio; chefe do setor de Dependências Químicas e Comportamentais da Santa Casa do Rio de Janeiro e diretora do Espaço Clif de Psiquiatria e Dependência Química.