Ozempic e Mounjaro: prós e contras das “canetinhas que emagrecem”
Medicamentos devem estar acompanhados de mudança de estilo de vida

É uma febre. Em qualquer roda que se converse, há alguém fazendo uso de alguma das famosas “canetinhas que emagrecem”, sendo que Ozempic e Mounjaro estão entre as mais famosas. No entanto, a verdade é que seu uso implica em uma série de pré-requisitos, indicações e efeitos colaterais que muita gente desconhece.
Enquanto o Ozempic tem como substância ativa a semaglutida, o Mounjaro tem como ativo a tirzepatida. Todos são medicamentos que imitam hormônios do intestino, inovadores no tratamento do diabetes tipo 2 e da obesidade.
Mais popular dentre esses medicamentos, o Ozempic foi liberado pela Anvisa para tratamento do diabetes tipo 2 e começou a ser comercializado no Brasil há seis anos, em três versões: doses de 0,25 miligramas, 0,5mg e 1mg. Geralmente aplicado no abdômen, o Ozempic deve ser injetado de forma subcutânea, ou seja, na camada após a pele. A aplicação é semanal porque a semaglutida é liberada na corrente sanguínea ao longo dos sete dias.
A substância age no organismo como o GLP-1, hormônio produzido no intestino após a ingestão de alimentos. Ela estimula a produção de insulina pelo pâncreas, retarda o esvaziamento gástrico e envia sinais de saciedade ao hipotálamo, responsável por integrar os sistemas endócrino e nervoso, levando a uma sensação prolongada de saciedade e reduzindo o apetite.
Ainda fora da prateleira das farmácias, o que deve acontecer em breve já que a Anvisa aprovou o medicamento, o Mounjaro é facilmente encontrado na internet – um comportamento desaconselhável, ainda mais se não houver acompanhamento médico. O Mounjaro melhora o controle glicêmico (quantidade de açúcar no sangue) de adultos com diabetes tipo 2. É esta melhora de sensibilidade à insulina que pode se atribuir a redução de peso.
Porém, diferente da semaglutida (que mimetiza os efeitos do GLP-1), a molécula do Mounjaro tem ação semelhante à de dois desses hormônios: o próprio GLP-1 e também o GIP (Peptídeo inibidor gástrico). Ao acionar os dois hormônios de uma vez, sua atuação é potencializada – especialistas atribuem ao Mounjaro melhores resultados que Ozempic entre pacientes diabéticos.
Nos Estados Unidos, o Mounjaro também foi liberado pela Food and Drug Administration (FDA) para o tratamento de obesidade. Estudo recente da revista científica JAMA Internal Medicine fez uma comparação do emagrecimento com as duas substâncias (tirzepatida e semaglutida). A primeira (do Mounjaro) é mais efetiva neste quesito. Após um ano de uso, a perda média de peso dos participantes que usaram Mounjaro foi de 15,3% e de Ozempic, cerca de 8,3% do peso corporal. Pode-se concluir, assim, que o Mounjaro tem quase o dobro de eficácia do Ozempic.
Apesar de todos os benefícios, não se pode perder de vista que se tratam de medicamentos. Portanto, não é raro que o uso dessas substâncias traga efeitos colaterais como náuseas, vômitos, diarreia, dor de estômago e no abdômen, fadiga ou tontura. Além disso, é preciso levar em conta as contraindicações: pacientes com histórico pessoal ou familiar de um determinado tipo de câncer de tireoide, mulheres grávidas ou lactantes, menores de 18 anos, portadores de diabéticos do tipo 1, pancreatite ou alérgicos a qualquer componente das fórmulas dos medicamentos.
Segundo a OMS, desde 2019 o mundo tem mais pessoas obesas do que passando fome. É natural, portanto, que haja uma procura crescente por recursos como as “canetinhas”. No entanto, o emagrecimento sustentável não acontece como um passe de mágica, com a simples aplicação de um medicamento. Para se manter a longo prazo, ele precisar estar combinado com uma mudança de mentalidade, que inclui dieta balanceada e prática regular de exercícios físicos.
Analice Gigliotti é Mestre em Psiquiatria pela Unifesp; professora da PUC-Rio; chefe do setor de Dependências Químicas e Comportamentais da Santa Casa do Rio de Janeiro e diretora do Espaço Clif de Psiquiatria e Dependência Química.