O futuro dos desfiles: tradição, inovação e os desafios do julgamento
Após um ciclo marcante, a estrutura dos desfiles das escolas de samba levanta questionamentos sobre padrões estéticos e critérios de avaliação

Passados os desfiles das escolas de samba de 2025 e ouvindo aqueles que vivem intensamente o espetáculo, uma pergunta se impõe: para onde estamos caminhando?
É inegável que tivemos um grande ciclo, com desfiles marcantes, a bem-sucedida divisão em três noites e o sucesso das rodas de samba na Praça da Apoteose após as apresentações. Além disso, a organização da passarela funcionou melhor para os sambistas, com menos gente transitando pelos setores. No entanto, também ficou evidente que certos segmentos das escolas estão cada vez mais engessados devido aos métodos de julgamento – que, em alguns casos, podem ser extremamente nocivos para o espetáculo.
Das doze agremiações do Grupo Especial, onze adotaram um modelo semelhante para suas comissões de frente: uma narrativa dentro da narrativa, iniciada com uma breve dança no chão diante do módulo de julgamento, seguida por uma performance em um elemento cenográfico dividido em três momentos – com coreografias, drones, efeitos de fogo e luzes – e duração máxima de três minutos. Apenas a Mocidade Independente de Padre Miguel apresentou um modelo diferenciado.
O mesmo se repete com os casais de mestre-sala e porta-bandeira. Apresentados pelos coreógrafos, iniciam sua dança na linha central da passarela, deslocando-se para a frente e para trás da pista, sempre voltados para os julgadores. Este ano, os casais da Unidos da Tijuca e da Imperatriz Leopoldinense apresentaram performances com a mesma duração, cronometradas em dois minutos e quinze segundos. Precisão desse nível só se vê em finais olímpicas de provas de velocidade. E estamos falando justamente de um setor que carrega a magia da cultura, a ancestralidade e os significados de um pavilhão.
Nas alegorias, observa-se um padrão estético cada vez mais homogêneo. Os julgadores tendem a buscar as mesmas referências, favorecendo alguns artistas enquanto outros são deixados de lado com um simples “não gostei”. No fundo, o julgamento se baseia em uma percepção subjetiva: emocionou ou não? Assim como numa exposição de arte, há quem prefira padrão eurocêntrico e outros que se identificam mais com a essência da cultura e da matriz africana. O problema é que, nos desfiles, essa subjetividade define vencedores e perdedores – e, muitas vezes, após um “não gostei”, o avaliador busca justificativas frágeis e inconsistentes para sustentar sua nota.
Mas é preciso lembrar: os desfiles só existem porque há uma escola de samba por trás. São as quadras das agremiações que sustentam essa história ancestral do povo preto, com torcidas apaixonadas e um legado cultural inestimável. O espetáculo é uma competição complexa, cujas nuances só são plenamente compreendidas por aqueles que o movimentam. E são esses personagens que deveriam estar na linha de frente da avaliação. São as pessoas que frequentam, vivem e respiram as escolas de samba que precisam estar envolvidas no julgamento do maior espetáculo cultural produzido pelo nosso país.
Entre todos os segmentos das escolas, há um que resistiu ao engessamento: as baterias. Elas são o coração pulsante das agremiações, carregando a essência mais raiz do samba. Em 2025, as baterias apresentaram criatividade e liberdade. Teve cadência, teve swing, teve identidade – vi e ouvi os atabaques. Que no próximo ciclo os outros segmentos se inspirem nesse lindo movimento artístico, permitindo que as escolas de samba continuem evoluindo sem perder sua essência.