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Carla Knoplech

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Brain Rot: palavra de 2024 critica a qualidade do conteúdo digital atual

Eleita pela universidade de Oxford, expressão é um alerta para a forma como estamos consumindo informações na internet na sociedade atual

Por Carla Knoplech
Atualizado em 6 dez 2024, 14h27 - Publicado em 6 dez 2024, 14h25
Eleita a palavra de 2024 pela universidade de Oxford, "Brain Rot" traz uma crítica intrínseca a forma como estamos consumindo informações na internet
Eleita a palavra de 2024 pela universidade de Oxford, "Brain Rot" traz uma crítica intrínseca a forma como estamos consumindo informações na internet  (Divulgação/Divulgação)
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Toda a vez que universidade de Oxford, na Inglaterra, anuncia a sua “palavra do ano”, eu paro para pensar no profundo e real significado daquela escolha. Vale dizer primeiro que esta seleção é um processo público que apesar de existir há 20 anos, começou a ganhar relevância de fato de 2015 pra cá quando, curiosamente, a escolhida do ano não foi uma palavra em si, mas um emoji. Foi bem interessante e capturava o zeitgeist do momento, que – aliás – é o intuito dessa escolha. Pois bem. A de 2024 é “Brain Rot” que em tradução literal do inglês quer dizer “podridão cerebral”.

O termo em si reflete bem o momento atual que estamos vivendo na internet e mais especificamente o universo de conteúdo digital (meu lugar de fala), mas isso quando nivelado por baixo, claro. A podridão a qual as mais de 37 mil pessoas que votaram nesse termo se referem é uma espécie de exaustão mental coletiva provocada pelo excesso de telas, modo de vida o qual estamos submersos e que acompanha a nossa rotina desde o trabalho até o lazer.

O que está em jogo, entretanto, é um notório declínio das capacidades mentais ou intelectuais de uma pessoa devido a um consumo excessivo de conteúdo online e, especificamente, quando esta qualidade é duvidosa. São muito os fatores que contribuem diariamente para este cenário. A velocidade das informações, com vídeos e áudios cada vez mais rápidos contendo mensagens encurtadas (mas não necessariamente digeridas rapidamente), a qualidade das informações, com posts sem profundidade que não incitam a massa crítica da audiência, a lógica do algoritmo das redes sociais, sempre nos fazendo querer consumir mais e mais com altas doses de dopamina, e é claro, a lógica do viés de confirmação, que nos divide em bolhas e nos emburrece literalmente por só trazer conteúdo favorável a nossa visão de mundo.

Origem histórica

Um dos pilares de escolhas para que o termo entrasse em votação foi o fato dele aumentar 230% o seu uso de 2023 para 2024, indicando assim uma tendência natural de interesse no assunto. Mas o que surpreende, entretanto, é que “Brain Rot” foi usada pela primeira vez em 1854 quando o pesquisador norte-americano Henry David Thoreau registrou a expressão no seu livro Walden, que foi uma manifestação dos ideais de um dos maiores críticos da civilização industrial na história e até hoje é referência para movimentos libertários, ecologistas e todos os que buscam uma vida mais harmônica.

A obra escrita há mais de um século passa por temas não superados até hoje pela sociedade contemporânea como o direito à liberdade e o respeito à natureza. Thoreau se atira em um experimento social indo viver às margens do lago Walden, em uma pequena cabana na floresta. Lá ele planta o que come, constrói o que usa e cria uma autossuficiente vida provocando reflexões sobre nosso modo de viver.

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Verbetes como termômetros

Se pararmos para refletir sobra a escolha de uma palavra para representar um ano podemos extrair uma série de observações sobre o mundo que estamos vivendo e consequentemente interpretá-lo de maneira mais eficaz. Lembro do termo “Vax”, escolhido para 2021 como uma abreviação de vacina, que traduzia perfeitamente o momento em que estávamos vivendo quando os antídotos contra a Covid 19 começaram a ser distribuídos países afora. Ou quando em 2020 a Oxford não conseguiu cravar uma palavra só e elegeu e “Lockdown, Black Lives Matter e Cancelamento” no mesmo ano.

Logo que comecei a dar aulas de criação de conteúdo digital, os meus slides traziam o contexto da palavra “Pós-Verdade”, eleita em 2016 e que ganhou muita força após a primeira vitória de Donald Trump, nos Estados Unidos. Relembrar esta cronologia é de certa forma uma retrospectiva das nossas últimas duas décadas.

Brain Rot

Antes que nosso cérebro apodreça e com a licença pessimista de projetar que a palavra de 2025 poderá ser ainda pior, clamo para a minha audiência que repense a origem, a qualidade, o fluxo e a forma com a qual está consumindo conteúdo na internet. Se o mundo de hoje é hiper conectado de maneira autoritária, seja você o sommelier de conteúdo que vai selecionar as melhores safras para a sua mesa.

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Adote horários ainda mais rígidos de produtividade conectada, em que você concentra o trabalho em um determinado período desconectando-se quando este momento acaba, preze por videoconferências mais diretas, e – por favor – lembre-se que esse aparelho na sua mão é apenas um celular, não a sua vida.

Carla Knoplech é jornalista, fundadora da agência Forrest, de conteúdo e influência digital, consultora e professora

 

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