Batalhas em trio embalam salto criativo e interativo do passinho
Talentos desse patrimônio imaterial do Rio opinam sobre o formato que estreia domingo, no Circo Voador, e realçam importância sociocultural da modalidade

Carioca na veia, o passinho transpira uma mistura irresistível: funk, break, morro, asfalto. Sua cadência elétrica acende um prestígio internacional propagado por talentos como o dançarino, coreógrafo e pesquisador Severo IDD; o craque André DB, campeão do Red Bull Dance Your Style Brasil 2023; e Vitorinha IDD, a Destemida, cujo epíteto retrata a luta por inclusão. O trio reforça o elenco da RedBull Rabiscada, domingo agora (23), às 18h, no Circo Voador.
Embaixadores desse patrimônio imaterial do Rio, eles reforçam a latitude cultural do estilo que eclodiu nos bailes urbanos e animam-se com o novo formato de batalhas em trio. Também professam a fé no crescimento popular do passinho, inclusive entre as mulheres:
Como se desenvolvem as batalhas em trio, formato que estreia na Red Bull Rabiscada?
André: A batalha em trio é formada por três dançarinos, com duas entradas em 130 bpm – o bpm normal do funk, da batida do passinho – e uma entrada em 150 bpm, batida mais acelerada, voltada para a dancinha. As performances são avaliadas por dois jurados de passinho, pessoas do movimento. E o voto é do público.
O que muda em relação às batalhas convencionais?
André: Em vez do costumeiro formato de um contra um, o novo formato reúne três pessoas dançando ao mesmo tempo. Na batalha de trios os dançarinos têm que trazer coreografias em time e solos. A galera passa a ver algo mais elaborado. É um formato muito bom. Gosto de interagir com outros dançarinos e com o público
Até que ponto o passinho influencia tendências internacionais?
André: O passinho e o funk já são tendência. Isso leva a galera a ver o que o funk está fazendo, o que o passinho está fazendo. Observamos diversas pessoas consumindo o nosso passinho, o nosso funk.
Quando você disputou a final do Red Bull Dance Your Style, em 2023, na Alemanha, o público lá achava sua dança muito diferente?
André: Foi muito diferente, porque geralmente as batalhas all style, que envolvem todos os estilos, reúnem só a galera de danças urbanas: hip hop, break, pop. Com o funk e o passinho, vivenciamos um formato original. E eu misturo o passinho com outras danças. A galera imaginava: “o que esse moleque vai fazer?”. Dançava descalço, fazendo movimento de ponta de pé, coisas incomuns nas batalhas, inclusive o footwork, que é diferente nas movimentações de passinho.
Severo, quais as contribuições da cultura carioca para o desenvolvimento da dança de rua?
Severo: O carioca tem um estilo único de viver, e isso contribui para a cultura de rua. Noutros estados, observamos um grupo meio nichado: break tem rolé de break, krump tem rolé de krump, funqueiro tem rolé de funqueiro, e várias vezes eles não se misturam. Como o Rio é pequeno e tem muita diversidade, as culturas precisam dialogar. Por exemplo, no mesmo rolé que eu vou, estão lá o funqueiro, o roqueiro, a pessoa do balé, a pessoa do samba. E todos interagem. Esse toque carioca favorece a inclusão cultural.
Iniciativas como o Red Bull Rabiscada indicam o avanço da cultura jovem urbana?
Severo: Sim, a Red Bull trabalha, por exemplo, com o break, com o house style. Agora chegou a vez do passinho, que ganha prestígio entre pessoas que não o conheciam. Quem conhece fica orgulhoso de se vincular ao passinho.
Participar de competição grande mostra que o passinho está cada vez mais pop?
Severo: O passinho é patrimônio cultural imaterial da cidade do Rio. Já esteve em palcos como a Olimpíada 2016. Até a diva pop Beyoncé já dançou passinho num clipe chamado Blue. Isso mostra que o passinho está grande. Quando ele sai do cenário urbano para virar mainstream, mais pessoas passam a conhecê-lo. Apoios como o da Red Bull ajudam a ampliar o alcance e a visibilidade do passinho, que não tem nem 30 anos. É bacana ver uma competição nacional de passinho ensinando mais uma cultura, porque a arte é fluida.
Como incentivar novos talentos e popularizar o passinho e outras danças de rua?
Severo: Para fomentar a cultura, é importante realizar batalhas, workshops, palestras. Com o evento do próximo domingo, vamos incentivar novos dançarinos. Batalhas com dançarinos de alto nível, como o André e a Vitorinha Destemida, cativam as novas gerações. Elas ficam estimuladas a participar, porque veem corpos diferentes daqueles de culturas elitizadas.

Vitorinha, como você, comprometida com a inclusão e as pautas LGBTQIA+, avalia a representatividade feminina no passinho?
Vitorinha: Hoje a representatividade feminina é bem exercida por mim e por outras meninas. Entendo a importância de eu estar nesses espaços, porque tira aquela imagem de que o passinho é só homem, que só homem consegue uma performance de alto nível.
De que forma melhorar a adesão das mulheres a movimentos como o do passinho e, consequentemente, melhorar a inclusão?
Vitorinha: Acho que fazendo o que eu já faço: botar a cara nas batalhas. Muita mina ainda tem receio de batalhar, porque não se vê representada. Quando me veem ali, percebem que sou uma figura feminina na qual podem se espelhar. Elas percebem que podem participar de eventos grandes, como a Red Bull Rabiscada, abrindo oportunidade para o passinho ser mais visto e mais praticado.
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Perspectivas do futebol carioca
A caixa de surpresas anda reclusa no imaginário. Nenhum sinal dela no Estadual. Cardíacos devem ter gostado.
Só forças sobrenaturais evitariam o merecido e previsível título rubro-negro. O escrete bilionário, orquestrado pelo promissor Filipe Luís, sobrou entre os pares domésticos.
O céu de brigadeiro provavelmente enfrentará eventuais turbulências na Libertadores, no Brasileiro, na Copa do Brasil. Galo, Palmeiras, Corinthians e Inter insinuam-se os concorrentes do afinado Flamengo.
Já os tricolores, asfixiados na final, continuam órfãos de um esquema impetuoso ou, como se diz, propositivo. A inofensividade nos Fla-Flus escancara a urgência de mudanças sem as quais ficará difícil arrumar alguma coisa em competições como a cobiçada Sul-Americana.
Vascaínos também se afligem. Esfomeados de competitividade, sonham com a recuperação de Coutinho para voltarem à elite da elite e reencontrarem a História. O desafio perdura igual praga persistente.
Sensação do ano passado, estrela ascendente, time a ser batido. Num par de meses o Botafogo transformou superlativos em interrogação.
A permanência de nove titulares campeões da Libertadores e do Brasileiro não expulsa a pulga da orelha alvinegra. O otimismo estremece com a saída dos insubstituíveis Luiz Henrique e Almada; o fracasso na Recopa e na Supercopa; a chegada tardia do treinador.
O reiterado desprezo ao Carioca e a falta de transparência dos treinos afastam a equipe da galera. Alimentam a incógnita.
Essas brumas logo se dissipam. Então veremos se os comandados de Renato Paiva defenderão com brio os tronos continental e nacional. Mesmo um tanto desconfiado, supersticioso de ofício, o torcedor botafoguense esfrega as mãos certo de que, ao menos no futebol, dinheiro nunca trouxe tanta felicidade.
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Alexandre Carauta é jornalista e professor da PUC-Rio, integrante do corpo docente da pós em Direito Desportivo da PUC-Rio. Doutor em Comunicação, mestre em Gestão Empresarial, pós-graduado em Administração Esportiva, formado também em Educação Física. Organizador do livro “Comunicação estratégica no esporte”.