Braços abertos à farta temporada das corridas de rua
Parcerias público-privadas poderiam aproveitar crescimento do esporte para democratizá-lo e integrá-lo a uma política de Saúde

O beach tênis domina as areias, o surfe se renova embalado pela maré internacional, o skate avança inspirado no sucesso olímpico, o futevôlei deslancha com a força um cartão-postal, a corrida engrena sob o compasso da diversidade. Em comum, a progressiva participação feminina.
Nenhum esporte cresce tanto no Rio quanto a corrida de rua. Ela amealha adeptos de múltiplos feitios, atraídos pela facilidade de praticá-la, pelo tônus social, pelas provas revestidas com diversões adicionais e, claro, pela companhia dos cenários que tornam a capital fluminense Patrimônio Mundial.
A ascensão incrementa grupos especializados, treinos festivos, competições – a maioria delas acompanhada de atividades culturais e gastronômicas. Aberta mês passado, com a corrida para o Pão de Açúcar, a temporada acelera domingo agora (16), com Circuito do Sol, no Aterro, e Cats Run, em Copacabana.
O cardápio inclui, por exemplo, Rio Maravilha Verão, no próximo dia 23; Estações, Poderosas e Mulher Maravilha, em março; Madureira Run, Night Run e RJ Run, em abril; Rio Maravilha Outono e Bravus, em maio; Maratona do Rio, The Best Run e Star Girls, em junho; Asics Golden Run e Uphill Corcovado, em julho; Meia Maratona do Rio, em agosto; Rio S21k, em setembro; Girl Power Run, em outubro; Rio Maravilha Seasons, em dezembro.
Tamanha fartura indica o salto econômico da modalidade. Estimulada pela indústria esportiva, sua associação a estilo de vida saudável impulsiona os setores de serviços, turismo, varejo. Marcas de vários segmentos apostam nesses encontros para dourarem relacionamentos de consumo.
A adesão feminina revela-se decisiva à expansão dos negócios. Mulheres corresponderam à metade das inscrições nas principais provas do ano passado, assinala o levantamento Perfil do Atleta Brasileiro 2024 – Ticket Sports. Não será surpresa se assumirem a liderança em 2025.
O poder público deveria pegar a onda. Explorá-la numa política de Saúde. Democratizar a corrida de rua, expandir seu acesso especialmente a pobres e vulneráveis, não exigiria grandes esforços financeiros, políticos, operacionais. Pelo contrário.
Parcerias com empresas seriam bem-vindas para subsidiar, por exemplo, avaliações médicas e funcionais; prescrição e orientação de treinamentos. Formam o alicerce de uma prática esportiva segura, eficaz, prazerosa.
O desembolso relativamente baixo daria um retorno substantivo à população. Cidadãos que se exercitam aumentam o bem-estar e reduzem o risco de obesidade, diabetes, infarto, AVC, depressão etc. O hábito diminui despesas com remédios e hospitalizações. Nada mal perante a premência de conter os gastos estatais.
O investimento também aprofundaria a relação com a cidade, seus recantos, suas cores, sua gente. As passadas, em ritmo audaz ou despretensioso, levam a conhecê-la e saboreá-la melhor. Nenhum outro pódio desbanca tal oportunidade.
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Desumano
Jogo às quatro da tarde no verão carioca desafia a sensatez, a prudência, a sorte. A sensação térmica frequentemente ultrapassa 35, 40 graus. Beira o desumano, mesmo para atletas de ponta.
Fora a queda de rendimento, o forno ativa ameaças como mal-estar, náusea, dor de cabeça, distúrbios metabólicos, transtornos cardiorrespiratórios. Pausa de hidratação pode ser insuficiente para afastá-las. Não adianta culpar os trópicos.
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Futebol e sustentabilidade
Por falar no entrelace entre clima e responsabilidade, especialistas e representantes de clubes discutirão, nesta quarta (12), às 16h, como o futebol pode contribuir para aliviar impactos do aquecimento global. Eles vão debater estratégias para consolidar o compromisso do esporte com a agenda climática.
O diretor do Terra FC, Ricardo Calçado; a diretora de Sustentabilidade do FC Porto, Teresa Santos; e o gerente de Compliance, ESG e DPO do Atlético-MG, Fernando Monfardini, apresentarão iniciativas socioambientais, como o programa Galo Sustentável. Para participar do webinar Futebol e o planeta: inspirando pela ação, é preciso preencher a inscrição.
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Alexandre Carauta é jornalista e professor da PUC-Rio, integrante do corpo docente da pós em Direito Desportivo da PUC-Rio. Doutor em Comunicação, mestre em Gestão Empresarial, pós-graduado em Administração Esportiva, formado também em Educação Física. Organizador do livro “Comunicação estratégica no esporte”.