Cuidados simples para alcançar a sustentabilidade esportiva
Adequação às características e preferências individuais favorece a regularidade do exercício e, assim, os benefícios à saúde

O Rio canta o verão com a doce eloquência de um sabiá. Acalmada a estridência das festas, ouvimos a mata, a praia, o asfalto cantarolarem maravilhas ao ar livre.
O chamado afina-se à vocação esportiva de uma cidade solar – solar mesmo à noite – cujas imperfeições não eclipsam o vasto repertório para caminhar, correr, pedalar, surfar, nadar, remar, jogar bola. Da altinha à beira-mar ao skate na praça, as esquinas renovam o convite a mexer o esqueleto.
Beira o impossível deixar de aceitá-lo circunstancialmente ou no embalo de uma resolução para o novo ano. Transformá-lo em estilo de vida é outra história: exige vitórias recorrentes sobre o sofá, o tempo escasso, a dorzinha inarredável. O pacto com a saúde impulsiona o primeiro e decisivo passo.
Exercício regular, alimentação balanceada e sono reparador formam o trio dourado do bem-estar físico e mental. Compõem o mais simples e eficiente plano previdenciário.
Meia hora diária de atividade moderada já faz uma tremenda diferença, atesta a ciência. Melhora a vitalidade, a imunidade, a memória, a libido, o humor. Reduz o risco, por exemplo, de diabetes, infarto, derrame, câncer, depressão.
A regularidade pavimenta o caminho até os benefícios da prática esportiva. Cuidados simples ajudam a mantê-la:
- Precaução: avaliações prévias – médicas, funcionais, posturais – identificam ameaças ao corpo (várias delas silenciosas) e particularidades biológicas. Elas indicam, assim, estratégicas para se exercitar com segurança.
- Adequação: quanto mais a atividade estiver ajustada às características, necessidades e agendas individuais, maior é a chance de cultivá-la. Profissionais de educação física e de medicina do esporte fornecem a prescrição adequada.
- Afinidade: a escolha de esporte ou exercício prazeroso afasta o fantasma da desistência. Não raramente é preciso experimentar várias modalidades até identificar a(s) preferida(s).
- Ponderação: metas graduais facilitam o avanço sustentado dos ganhos obtidos com a atividade física. Objetivos demasiadamente audaciosos queimam etapas e podem causar decepções
- Companhia: conjugar a prática esportiva ou o exercício com a vida social estimula a regularidade. Mas a sociabilização jamais deve atrapalhar o treino.
- Parcerias: refeições equilibradas e boas noites de sono são os grandes parceiros da atividade física. Atenuam desgastes, facilitam a recuperação, auxiliam o controle do peso corporal e ajudam a melhorar o condicionamento atlético.
- Hidratação: recomenda-se beber, em média, 1,5 litro de água por dia. A quantidade aumenta proporcionalmente à frequência e à intensidade do exercício, assim como às condições ambientais. Alta temperatura e baixa umidade requerem mais hidratação.
- Prudência: condições extremas e exercícios podem gerar uma química explosiva. Praticar esporte sob temperaturas superiores a 40 graus aumenta a chance, por exemplo, de desidratação, distúrbios metabólicos, náusea e complicações mais graves.
- Proteção: atividades ao ar livre precisam ser acompanhadas de protetor solar. Ele deve ser usado até em dias nublados, para conter o risco do câncer de pele.
- Conforto: roupas, equipamentos e ambiente devem estar compatíveis com a atividade praticada. Caso contrário, provocam desde desconforto até insegurança.
Janelas à preguiça
Mexer o esqueleto não exclui outro zelo primordial à saúde, embora aparentemente contraditório: permitir-se preguiça. Seria ilusório opor um comportamento ao outro.
Despida do estereótipo capitalista, preguiça equivaleria a uma libertação provisória do espírito – desgarrado dos tempos, dos juízos, da batuta utilitária. Sem preguiça, neste sentido, não haveria poesia, assinala o filósofo e escritor Antonio Cicero, em “O eterno agora”.
Esse estado transcendente, observa Cicero, corresponde ao que o poeta Paul Valéry descreve como “aquela paz essencial nas profundezas do nosso ser, (…) durante a qual o ser, de algum modo, se lava do passado e do futuro, da consciência do presente, das obrigações pendentes, das expectativas à espreita. Constitui “uma vacuidade benéfica que devolve ao espírito sua liberdade própria”.
Faria muito bem à cuca – e à aragem artística que teimamos soprar, sem a qual murcharíamos – abrirmos janelas para a preguiça dos poetas. Um providencial antídoto contra as asfixias instrumentais que rondam até o nosso lazer.
Feliz 2025!
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Alexandre Carauta é jornalista e professor da PUC-Rio, integrante do corpo docente da pós em Direito Desportivo da PUC-Rio. Doutor em Comunicação, mestre em Gestão Empresarial, pós-graduado em Administração Esportiva, formado também em Educação Física. Organizador do livro “Comunicação estratégica no esporte”.