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Esquinas do Esporte

Por Alexandre Carauta, jornalista e professor da PUC-Rio Materia seguir SEGUIR Seguindo Materia SEGUINDO
Pelos caminhos entre esporte, bem-estar e cidadania

Embalos de uma apoteose em preto e branco

Banhado no carnaval à beira da Enseada, título alvinegro consagra reencontro com a História e as histórias sem as quais o futebol não seria o que é

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Atualizado em 5 dez 2024, 09h23 - Publicado em 4 dez 2024, 18h23
Festa da torcida do Botafogo na Enseada
 (Arthur Barreto/Botafogo/Divulgação)
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Nada de azar, forças ocultas, de sofrência. Nada de surpresa. Até as vigas do estádio portenho sabiam: qualquer acaso, mesmo uma expulsão aos 40 segundos, acabaria ofuscado pelo brilho botafoguense.

Desta vez nenhuma travessura dos deuses sabotaria o destino. A conquista da América é um nocaute da justiça sobre o imponderável.

Justiça com a História. O futebol não seria o que é sem o Botafogo, sem poetas como Heleno, Amarildo, Nilton Santos, Didi, Gérson, PC Caju, Jairzinho. Teria bastado Garrincha.

Justiça com as histórias do campo e da arquibancada. Dos heróis irreverentes. The Flash, Pantera, Túlio Maravilha, Loco, e outros que, feitos de brisa, cativam além dos gols, das vitórias, dos troféus.

Justiça com a mística alvinegra, a incomparável mística alvinegra. Eis que dela brota novamente um Camisa 7 para decidir a parada. Insinuante, liso, ironicamente canhoto. Tinha de ser um Camisa 7.

Justiça com as rezas, as superstições, a perseverança sincrética. Ninguém agora liga se os anjos tardaram em atendê-las. “Liberta no papo” tem 13 letras, festejaria Zagallo.

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Justiça com a torcida e sua psiquê, orgulhosamente parodiada pelo documentarista Luís Nachbin. Justiça com o amor banhado de listras à beira da Enseada. Mais do que homônimos, o bairro, a praia, o clube ali nascido eram uma rima perfeita, um domingo de carnaval: a galera e os campeões numa apoteose tão vibrante quanto um samba da Beth.

Justiça com o epíteto fiel às preciosidades esportivas, socioculturais, simbólicas da agremiação criada em 1894. Fiel às glórias cuja eternidade precede slogans.

Justiça com o melhor time do ano, um dos melhores dos últimos tempos. Comunhão entre a grana aportada pela SAF de John Textor, o elenco virtuoso, equilibrado, e a consistência tática orquestrada pelo técnico Artur Jorge. Os olheiros também bateram um bolão.

Time da moda, dizem as esquinas. Nem tanto. O Botafogo de Luiz Henrique, Almada e Savarino, de Marlon, Igor Jesus e Júnior Santos caminha sobre um chão de estrelas, acima do efêmero. Emana a perenidade celebrada por Eduardo Galeano no conto “A festa”:

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“Enquanto acontecia, essa alegria estava já sendo recordada pela memória e sonhada pelo sonho. Ela não terminaria nunca, e nós tampouco, porque somos todos mortais até o primeiro beijo e o segundo copo, e qualquer um sabe disso, por menos que saiba”.

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Evaristo vira livro

Por falar em acerto com a História, vem aí a biografia do grande Evaristo de Macedo. Será escrita por Luciano Ubirajara Nasser, autor do recém-lançado “Doval – O ídolo do povo”.

A proeza de ter virado ídolo do Barcelona e do Real Madrid indica a suculência do enredo em torno do ex-atacante, de 91 anos. Com o apoio do Museu da Pelada, o lançamento está programado para o primeiro semestre de 2025.

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Quatro vezes 10

Como é bom ver um autêntico 10, desses admirados até pelos rivais, desses temidos mais do que bomba atômica pelos adversários. Quatro deles encheram os olhos na temporada do nosso futebol.

Ressuscitado por Abelão e Fernando Diniz, o veterano Paulo Henrique Ganso compensa a baixa intensidade com a elegância, a inteligência e a destreza de um maestro. Pena que a orquestra tricolor desafinou.

Alan Patrick, cérebro do Inter, domina os atalhos e a bola como quem brinca no quintal. Jogasse ele na Europa, no Rio ou em São Paulo, estaria na seleção.

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Pouco importa que Thiago Almada veste a 23. O jovem argentino cumpre à risca a cartilha do Camisa 10. Começa a corresponder ao peso de contratação mais cara do Botafogo (25 milhões de dólares, cerca de R$ 150 milhões, na cotação atual).

O conterrâneo Rodrigo Garro também engrena, e reconecta os corinthianos com sonhos ambiciosos. Pelota grudada na chuteira, o habilidoso canhoto arma a equipe e inferniza as defesas. O que mais se espera de um meia assim?

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Alexandre Carauta é jornalista e professor da PUC-Rio, integrante do corpo docente da pós em Direito Desportivo da PUC-Rio. Doutor em Comunicação, mestre em Gestão Empresarial, pós-graduado em Administração Esportiva, formado também em Educação Física. Organizador do livro “Comunicação estratégica no esporte”.

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