Por que o Carioca merece uma chance de alcançar o futuro
Futebol globalizado não revoga importância local, inclusive ao consumo, mas campeonato exige avanços como renovação do formato

Todo começo de ano a chiadeira se repete. Entrou para a agenda sazonal. Praias fervem, blocos aquecem e a galera descasca o Carioca. Um passatempo pré-carnavalesco.
Times ainda desbotados, partidas arrastadas, algumas longe de casa, ausência de premiação. Acumulam-se argumentos à extinção do campeonato outrora empolgante. Atiçam a nostalgia.
Descontado o saudosismo, dois motivos acodem a permanência da competição: densidade sociocultural, movida por antagonismos entre os grandes, e sobrevivência dos pequenos. Deveriam ativar esforços conjuntos para revitalizá-la.
O futebol globalizado não revoga rivalidades locais, preponderantes à História, ao consumo, às relações mediadas pela bola. Elas alfabetizam e estimulam o torcedor, mesmo o torcedor fugaz, ora mais permeável a xodós de outras bandas.
Rivalidades locais ancoram o esporte popularizado graças ao clubismo. Manifestam-se, com irreverência cativa, em praças, prédios, escritórios. Movem corações e mentes, audiências e receitas. Subestimá-las configura uma mancada.
Igualmente equivocado é considerá-las suficientes à manutenção do Estadual. O desafio exige um conjunto de avanços. Incluem desde ajustes no formato da disputa até a qualificação e a melhor promoção dos espetáculos.
Talvez a tarefa mais difícil seja conciliar necessidades que separam o quarteto de gigantes dos demais competidores. Enquanto os calendários nacional e internacional sufocam Flamengo, Fluminense, Botafogo e Vasco – doce problema, escoltado por ganhos esportivos e financeiros –, coadjuvantes enfrentam o oposto: padecem com a escassez de jogos representativos, de visibilidade e, portanto, de renda durante boa parte do ano.
A formulação de um modelo conciliatório e diversamente atrativo insinua-se tão complexa quanto impreterível. A competência profissional para desenvolvê-lo esbarra em impasses políticos e gerenciais. Dele depende o futuro de um torneio no qual historicamente se pronunciam caligrafias do Rio: seus bairros, subúrbios, escaninhos, suas misturas, fragmentações, contradições, seus dilemas e humores, sua alma.
Se não encontramos tal caminho, o Carioca continuará banalizado como preparatório aos clubes da elite, até virar um pôster na parede. A decisão patina na premissa caolha da desimportância regional, progressivamente naturalizada.
Quando a feira calar-se sobre o Fla-Flu no Maraca, a zebra suburbana, a virada imposta ao rival de estimação, aí não haverá mais jeito. Até lá, o destino emparelha-se ao do samba evocado por Nelson Sargento: agoniza mas não morre.
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Reaprender a andar
Rubro-negros já levantam taça, alvinegros projetam seguir no paraíso, vascaínos farejam dias melhores. Tricolores começam o novo ano como terminaram o velho. Cabeça inchada, corneta afiada, adernam entre a lamúria e o desassossego.
A pálida largada dos comandados de Mano Menezes desperta bombardeios ao time em gestação, ao treinador, a quase todos os reforços. Sobra até para o preparo físico.
A retomada do equilíbrio envolve uma missão nada fácil: superar a dependência de Ganso, afastado por uma inflamação no músculo cardíaco (miocardite). O Flu precisa reaprender a andar.
Desde 2023 a equipe joga sob o compasso do habilidoso armador. Nunca é simples abdicar de um cérebro assim.
Ressuscitado por Abel e, em especial, por Diniz, Paulo Henrique Ganso compensa com inteligência e refino técnico a baixa intensidade inerente aos 35 anos e às cumulativas contusões. O clássico Camisa 10 integra o clã dos maestros, cada dia mais raros. Há muito não frequentam a nossa seleção.
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Alexandre Carauta é jornalista e professor da PUC-Rio, integrante do corpo docente da pós em Direito Desportivo da PUC-Rio. Doutor em Comunicação, mestre em Gestão Empresarial, pós-graduado em Administração Esportiva, formado também em Educação Física. Organizador do livro “Comunicação estratégica no esporte”.