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Fabiano Serfaty

Por Fabiano M. Serfaty, clínico-geral e endocrinologista, MD, MSc e PhD. Materia seguir SEGUIR Seguindo Materia SEGUINDO
Saúde, Prevenção, Tratamento, Qualidade de vida, Bem-estar, Tecnologia, Inovação médica e inteligência artificial com base em evidências científicas.

Nova medicação para dor é aprovada pelo FDA

Suzetrigina, novo analgésico não opioide, é indicado para dores agudas moderadas a graves e traz esperança para uma nova era no manejo da dor

Por Dr. Fabiano M. Serfaty e Dra. Mariana Mafra Junqueira.
Atualizado em 22 fev 2025, 11h18 - Publicado em 21 fev 2025, 15h36
82% dos cariocas sofrem com dor de cabeça (Acervo Abril/Veja Rio)
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Nos últimos anos, a crise dos opioides acendeu um alerta global sobre o uso de analgésicos. A recente aprovação da suzetrigina (nome comercial Journavx) pelo FDA (Food and Drug Administration) traz esperança para uma nova era no manejo da dor. Esse novo tratamento não opioide, indicado para dores agudas moderadas a graves em adultos, representa o primeiro avanço significativo em analgésicos orais em mais de duas décadas. Diferentemente dos opioides tradicionais, que atuam nos receptores cerebrais e apresentam alto risco de dependência, a suzetrigina oferece uma alternativa mais segura e eficaz. Para entender as implicações desta aprovação, convidei a médica Mariana Mafra Junqueira, anestesiologista e especialista em medicina da dor, para compartilhar sua visão sobre os impactos para os pacientes, os médicos e o sistema de saúde como um todo.

Dr. Fabiano M. Serfaty: Afinal, o que é essa nova medicação aprovada pelo FDA e como ela atua no alívio da dor?

Dra. Mariana Mafra Junqueira: Essa medicação é um analgésico não opioide chamada suzetrigine que foi aprovada pelo FDA agora em janeiro de 2025, sendo o comercial Journavx. Foi inicialmente aprovada para tratamento de dor aguda, de intensidade moderada a intensa e não para o tratamento de dor crônica. A suzetrigine inibe a informação do estímulo doloroso
dos nervos ao cérebro. Ela atua inibindo canais de sódio, chamados Na v 1.8. Esses canais de sódio estão presentes nos nervos e envolvidos no processamento de dor, conduzindo a informação até o cérebro. Para sentir dor precisamos ter consciência dessa informação que vai dos nervos ao cérebro, sendo modulada em seu trajeto.

Dr. Fabiano M. Serfaty: Qual é o impacto da aprovação deste novo tratamento não opioide na luta contra a epidemia de opioides?

Dra. Mariana Mafra Junqueira: Considero um avanço enorme, mas temos que lembrar que ainda não foi aprovada para dor crônica, e esse é o problema maior na epidemia do uso de opioides. O uso crônico dos medicamentos, levando a abuso dessas substâncias, dependência, adição e abstinência, é o grande responsável pela epidemia. Dependendo da potência do fármaco e dos fatores de risco do paciente, há risco de abuso desde a primeira dose. Muitas vezes os opioides são prescritos em cenários de dor aguda após trauma ou em pós-operatório, e esse pode ser o primeiro contato do paciente com essa classe de medicamentos. Os pacientes nos Estados Unidos têm altados hospitais ou de clínicas, após cirurgias de pequeno porte, com prescrição de opioide por meses, e por muitos anos o controle dessas prescrições foi inadequado. Os estados americanos não se comunicavam para controle da prescrição e as receitas eram feitas por vários médicos para um mesmo paciente. Muitos medicamentos foram desenvolvidos na tentativa de combater essa crise, como os óleos de cannabis medicinal, que até agora não foram tão promissores para combate a epidemia. Vejo a suzetrigine como um grande avanço, mas temos que prescrever com cautela, mesmo sendo um analgésico não opioide.

Dr. Fabiano M. Serfaty: Quais os diferenciais clínicos e farmacológicos dessa nova classe de analgésicos em relação aos  opioides?

Dra. Mariana Mafra Junqueira: A suzetrigine age inibindo os canais de sódio, já os opioides atuam em diversos receptores, chamados Mu, Kappa, delta, dentre outros, em muitas áreas do corpo, no cérebro, na medula, nos órgãos. São muitos receptores diferentes, o que torna os opioides uma classe bastante heterogênea. Opioides são substâncias sintéticas derivadas da morfina. A morfina é uma substância extraída da seiva da papoula, sendo chamada opiaceo e os outros
componentes produzidos em laboratório são chamados opioides. Eles têm potências e características diferentes tanto para analgesia (alívio da dor) quanto para abuso e adição, dependendo do tipo de receptor ao qual a droga tem mais afinidade. Medicamentos como a oxicodona de liberação prolongada, sendo o nome comercial oxycontin, estão entre os mais potentes e perigosos, o paciente vai precisando de doses cada vez maiores, o que chamamos de tolerância, e o próprio medicamento mexe no limiar de dor, causando uma queda desse limiar, denominada hiperalgesia, o paciente passa a experimentar mais dor pelo uso do medicamento e achar que precisa de doses cada vez maiores. O uso abusivo pode levar a depressão respiratória e morte.

Dr. Fabiano M. Serfaty:  Como este tratamento pode transformar o manejo da dor em emergências e cirurgias?

Dra. Mariana Mafra Junqueira: Este medicamento vem trazendo esperança de uma recuperação melhor e melhor analgesia, com maior controle de efeitos colaterais. Ele parece ter um perfil bastante seguro e tolerável, mas sempre precisamos lembrar que no mundo real (uso em grande escala) a medicação pode apresentar efeitos colaterais que não apareceram nos estudos, por interação medicamentosas, por uso em grupos populacionais não estudados, por extrapolação a outras indicações. Além dos riscos do uso prolongado e abuso, os opioides causam muitos efeitos colaterais, como náusea, constipação ou “prisão de ventre”, tontura, sonolência e facilmente interagem com outros medicamentos, o que torna difícil o manejo de dor em cirurgias de grande porte, pelo número de efeitos colaterais gerados para garantir analgesia adequada.

Dr. Fabiano M. Serfaty: Existem contraindicações ou perfis de pacientes que se beneficiariam mais dessa abordagem não opioide?

Dra. Mariana Mafra Junqueira: Sim, sem dúvida. Muitos pacientes poderão se beneficiar. Na falta de opção, porque as vezes a dor é muito intensa, prescrevemos opioides com cautela e acompanhamento. Entretanto existem pacientes que apresentam risco elevado aos efeitos colaterais como pacientes mais velhos ou em uso de muitos outros medicamentos que podem interagir com os opioides, como anti-depressivos, anti-psicóticos, benzodiazepínicos (clonazepam, lorazepam, etc), zolpidem e medicamentos para doença de Parkinson. Pacientes que fizeram cirurgia abdominal tem maior risco de bridas (aderências nas alças intestinais) e podem apresentar obstrução intestinal com uso de opioide, esses casos também podem ter grande benefício com a suzetrigina. Pacientes com câncer apresentam efeitos colaterais ao uso de medicamentos durante o tratamento, quimioterapia ou imunoterapia que combinados com os opioides potencializam muito os efeitos colaterais e pode ser desastrosa. A dor neuropática, a dor de nervo, que tem choques, fisgadas e o que chamamos de sintomas negativos, como dormência e formigamento, responde mal à maioria dos opioides e o mecanismo de ação da suzetrigina parece ser bem mais interessante para o tratamento de dor neuropática. Quando avaliamos pacientes com fatores de risco ao abuso, sendo eles: adição a outras substâncias, como álcool e drogas ilícitas, história de depressão ou ansiedade graves, abuso de medicamentos prescritos, pessoas que sofreram abuso moral ou sexual, dentre outros, sabemos que o risco de abuso e adição aos opioides é muito maior. Esperamos que a suzetrigina seja uma ótima alternativa para esse cenário, dado que até agora não tínhamos tantas opções eficazes no arsenal terapêutico. Lembrando que o medicamento foi estudado no contexto de pós-operatório nos três estudos conduzidos que permitiram a liberação do FDA, um deles sendo em abdominoplastia, uma cirurgia que não tem um pós-operatório tão doloroso como uma cirurgia de tórax ou joelho por exemplo. Um dos estudos foi conduzido em cirurgia de buniectomia (cirurgia de joanete) que tem um pós-operatório bem doloroso. Nesse estudo, a hidrocodona (opóide) com acetaminofeno mostrou-se superior no controle de dor comparando-se ao grupo com suzetrigina.

Dr. Fabiano M. Serfaty: Quais os potenciais efeitos adversos dessa nova terapia e como eles se comparam aos dos opioides?

Dra. Mariana Mafra Junqueira: A suzetrigina apresentou efeitos colaterais em estudos preliminares como espasmos musculares, náuseas, prurido e risco de lesão muscular. Os estudos foram conduzidos com um grupo de pacientes, em sua maioria, de 18 a 65 anos, a maioria sexo feminino, então não sabemos como irá se comportar em outras populações. Em um dos estudos, a incidência de náusea com o uso da suzetrigina chegou a 20%. Os pacientes com função hepática (do fígado) alterada devem ser avaliados com cautela e a dose deve ser corrigida.

Dr. Fabiano M. Serfaty: Como os médicos brasileiros podem se preparar para adotar essa nova abordagem no manejo da dor?

Dra. Mariana Mafra Junqueira: O primeiro passo é ler sobre a medicação no site do FDA, onde podem ser encontradas todas as informações detalhadas e é preciso entender que os estudos foram conduzidos em pós-operatório. Quando o medicamento chegar ao mercado, deveremos tomar cuidado ao extrapolar para outras indicações e considerar a interação com outros medicamentos, principalmente aqueles que sofrem alterações no fígado. A cannabis medicinal foi considerada como a opção que iria mitigar o uso de opioides e na prática não vimos claramente esse impacto positivo.

Dr. Fabiano M. Serfaty: Quais mudanças regulatórias e de políticas de saúde seriam necessárias para ampliar o acesso a terapias não opioides no Brasil?

Dra. Mariana Mafra Junqueira: No Brasil, ainda temos um contrassenso. Começamos a notar um aumento do número de prescrições de opioides principalmente em dor crônica, crescendo em 465% a prescrição de opioides de 2009 a 2015, segundo dados da Fiocruz. Em contrapartida, somos um país que ainda sofre de opiófobia, com consequências negativas a quem sofre com câncer e preciso de morfina e seus derivados para controle de dor. A suzetrigina tem um custo alto, sendo em torno de 15 dólares por pílula, o que limita muito o acesso, mesmo assim há necessidade de discussão ampla em saúde pública já que ela custeia o tratamento de pessoas adictas a opioides. Essas pessoas muitas vezes saem do mercado do trabalho, perdem funcionalidade, sofrem com depressão e podem passar a procurar drogas ilícitas, como heroína, que é o mais potente opioide.

Dr. Fabiano M. Serfaty: Você acredita que essa aprovação pelo FDA pode impulsionar o desenvolvimento de novos tratamentos não opioides globalmente?

Dra. Mariana Mafra Junqueira: Acredito que sim. O medicamento foi submetido e avaliado como prioridade, no chamado “Fast Track” e “Breakthrough Therapy”, ou seja, uma terapia que deve ser aprovada rapidamente, sendo inovadora. Espero que a Anvisa aprove com rapidez, pois a dor tem consequências graves ao indivíduo e à sociedade.

Dr. Fabiano M. Serfaty: Como pacientes e profissionais de saúde podem colaborar para reduzir a dependência de opioides?

Dra. Mariana Mafra Junqueira: Pesquisando na literatura científica de qualidade e não só no que é trazido pela indústria farmacêutica ao seu consultório, buscando conhecimento em trabalhos conduzidos sobre os riscos do medicamento e mecanismos deação. É uma classe variada de medicamentos e os riscos são diferentes. Existem opioides de menor risco, como a buprenorfina, que foi desenvolvida para os pacientes que estavam em desmame ou em terapia de substituição por dependência a opioide, mas apresentou excelente poder analgésico. Os pacientes devem expor ao médico sua história clínica detalhada, não omitir seus fatores de risco e os outros medicamentos utilizados. Os opioides devem ser iniciados em dose baixa por um tempo determinado com acompanhamento frequente do paciente. Lembrar das interações medicamentosas com outros fármacos, como benzodiazepínicos e dos riscos de sonolência, confusão mental e depressão respiratória. Em casos de pacientes com câncer, o pensamento não é o mesmo, porque muitas vezes, prescrevendo opioide de forma adequada, a dor oncológica pode ser bem controlada, evitando os picos insuportáveis da denominada dor incidental. O paciente deve ser orientado para que ao final do tratamento, se ainda tiver comprimidos em casa, ele deve entregar a um posto de saúde, ou clínica para descarte, deixar em local seguro em casa, evitar uso inadvertido e o uso recreativo, e nunca oferecer para outra pessoa da família ou amigo, se esse se queixar de dor.

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