Como conversar com seu filho sobre o conteúdo que ele assiste online?
Discussão levantada por jornal americano é fundamental também para os lares brasileiros

Quem lançou a discussão foi o jornal americano The New York Times. Apesar da sugestão de especialistas quanto as restrições, crianças e adolescentes estão consumindo mídia digital como nunca, passando horas por diante do YouTube ou do TikTok. De acordo com a reportagem, cerca de metade dos adolescentes que relatam passar muito tempo online dizem que discutem o assunto com os pais, de acordo com uma pesquisa do Pew Research Center.
Se o convívio dos menores com a internet e as redes sociais é mesmo inevitável, é preciso ampliar o já tão necessário diálogo entre pais e filhos. A exposição a conteúdos negativos, como violência, uso de drogas, automutilação ou imagens corporais prejudiciais, pode ser nociva aos adolescentes, mas os adultos tem a capacidade de reduzir muito os efeitos negativos iniciando conversas francas, é o que defende as novas diretrizes da Associação Americana de Psicologia (APA), divulgadas há alguns dias. A palavra de ordem é curiosidade pelos hábitos digitais dos filhos e não o confronto. São muitas as maneiras de começar conversas que podem ajudar as famílias a terem trocas mais produtivas e o jornal sugere algumas. A primeira delas é bastante objetiva.
Pergunte ao seu filho se ele já viu um vídeo gerado por Inteligência Artificial. E, caso a resposta seja positiva, procure entender como ele sabe que o conteúdo utiliza esse recurso. Mesmo no mundo de hoje, repleto de fake news e materiais adulterados, o cérebro ainda é programado para acreditar no que vê. Por isso é necessário um esforço consciente para perceber e questionar que determinado conteúdo pode não ser real. Adolescentes podem aplicar essas habilidades de reconhecimento no dia a dia, ajudando-os a identificar conteúdos falsos ou declarações enganosas enquanto assistem a vídeos. A bem da verdade, esta situação não está tão distante deles, tendo em vista o crescimento de casos de cyberbullying, com adulteração de vídeos e fotos dos adolescentes, que correm entre grupos de WhatsApp e causam tanta dor e prejuízo aos jovens.
Uma segunda abordagem pode ser quanto a opinião do jovem, quais são os “prós” e “contras” que ele enxerga na inteligência artificial. Formular a pergunta dessa forma demostra interesse na opinião do adolescente, levando a uma discussão mais equilibrada e menos passional acerca dos pontos positivos e os negativos da IA. Dar a chance ao jovem de ensinar algo que os pais não sabiam demonstra confiança e predisposição à abertura.
O terceiro ponto é saber quem são alguns dos youtubers e criadores de conteúdo favoritos do seu filho. Uma simples pergunta pode abrir muitas frentes de assuntos sobre como estas pessoas ganham dinheiro com internet, o que as levam a escolher certos temas e os tipos de conteúdo que podem ser indesejados para o seu filho, seja pela faixa etária dele ou mesmo pelos valores que o conteúdo apregoa.
Um quarto item de interesse pode ser se informar sobre o que seu filho anda assistindo. Sabemos que é bastante complexo monitorar todo o conteúdo que os jovens consomem online. A ideia aqui não é condenar ou julgar a qualidade do material – lembre-se que seu filho é mais jovem, ele tem interesses diferentes do seu –, mas sim abrir um canal de diálogo. Questionamentos como “o que esse conteúdo te fez sentir?” ou “o que você acha que esse vídeo quis dizer” podem ser bem vindas para dar o pontapé na conversa.
Por fim, entenda se seu filho já viu algo semelhante na vida real. Essa pergunta pode ser bastante útil nos casos de conteúdo como os desafios que dominam a internet (e são bem prejudiciais à saúde dos jovens), vídeos violentos (associados a casos de automutilação ou suicídio) ou que divulgam outros transtornos, como distúrbios alimentares. Se ele for honesto a ponto de dizer que sim, aproveite este canal de comunicação e abra uma conversa honesta. Mantenha a calma e não pressione ou julgue o jovem: lembre-se que a confiança é a chave para o relacionamento saudável.
Fabio Barbirato é médico psiquiatra pela UFRJ, membro da Academia Americana de Psiquiatria da Infância e Adolescência e responsável pelo setor de Psiquiatria Infantil da Santa Casa do Rio. Como professor, dá aulas na PUC-Rio. Foi um dos apresentadores do quadro “Eu amo quem sou”, sobre bullying, no “Fantástico” (TV Globo).