Como saber a hora de tirar os filhos das redes sociais?
Redes sociais devem ser entendidas como praças públicas: nenhum pai deixaria o filho desassistido em um shopping ou na praia

A Austrália é o primeiro país do mundo a proibir o uso de redes sociais por jovens menores de 16 anos. O país se viu dividido: enquanto uns enxergam uma medida protetiva, outros julgam que se trata de um paliativo que pune e isola os jovens. De fato, sem a devida supervisão, os jovens são expostos a uma excessiva quantidade de conteúdo sobre abuso de drogas, transtornos alimentares e violência com possibilidade de danos à saúde mental.
A lei australiana exige que as plataformas de mídia social tomem “medidas razoáveis” para verificar a idade dos usuários e proíba menores de 16 anos de abrir contas. O governo não especifica quais plataformas serão cobertas pela proibição — isso será decidido posteriormente —, mas o governo nomeou TikTok, Facebook, Snapchat, Reddit, Instagram e X como sites que provavelmente serão incluídos.
Três grandes categorias de plataformas serão isentas: aplicativos de mensagens (como WhatsApp e Messenger Kids, do Facebook); plataformas de jogos; e serviços que fornecem conteúdo educacional, incluindo o YouTube. Aqueles com 15 anos ou menos também ainda poderão acessar plataformas que permitam que os usuários vejam algum conteúdo sem registrar uma conta, como TikTok, Facebook e Reddit.
Os defensores da proibição dizem que atrasar a exposição das crianças às muitas pressões das mídias sociais lhes daria tempo para desenvolver uma “identidade mais segura”, ao mesmo tempo em que tiraria a pressão dos pais para policiar a atividade online de seus filhos. Mas especialistas em mídia digital afirmam que a natureza fragmentada das plataformas torna pouco claro do que ela pretende proteger as crianças. Uma abordagem mais eficaz seria exigir que as empresas de mídia social fizessem um trabalho melhor de moderação e remoção de conteúdo prejudicial.
Há alguns anos, causou polêmica a decisão de uma mãe paulista que decidiu apagar o perfil de sua filha adolescente das redes sociais. A atitude passaria despercebida, se a menina não fosse uma influenciadora digital: sem profissão, sem trabalho produtivo ou criativo, a menina, então com 14 anos, tinha mais de dois milhões de seguidores em um perfil alimentado a base de selfies.
“Não acho saudável nem para um adulto e muito menos para uma adolescente basear referências de autoconhecimento em feedback virtual. Isso é ilusão e ilusão mete uma neblina danada na estrada do se encontra. Eu não quero que ela cresça acreditando que é esse personagem. Não quero ela divulgando roupas inflamáveis de poliéster made in China. Não quero minha filha brilhante se prestando a dancinhas diárias como um babuíno treinado. Acho divertido… e mega insuficiente. Triste geração em que isso justifica fama. Saudade de quando precisava ter talento em alguma coisa para se destacar”, justificou-se a mãe à época.
Apesar de muito presentes em nossas vidas, as redes sociais ainda são um fenômeno recente. Ainda estamos aprendendo a lidar com ela. As redes devem ser entendidas como praças públicas. Aos pais, cabe manter o olhar atento, como se os filhos estivessem soltos no shopping ou na praia. É seu papel fundamental estarem atentos, firmes na imposição de limites, nem sempre prazerosos aos filhos.
Fabio Barbirato é psiquiatra pela ABP/CFM e responsável pelo Setor de Psiquiatria Infantil do Serviço de Psiquiatria da Santa Casa do Rio. Como professor, dá aulas na pós-graduação em Medicina e Psicologia da PUC-Rio. É autor dos livros “A mente do seu filho” e “O menino que nunca sorriu & outras histórias”. Foi um dos apresentadores do quadro “Eu amo quem sou”, sobre bullying, no “Fantástico” (TV Globo).