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Fábio Barbirato

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Psiquiatra infantil

Dia Internacional da Mulher: como anda a saúde mental das meninas?

Distúrbios alimentares, depressão e ansiedade estão entre os transtornos mais comuns

Por Fabio Barbirato
7 mar 2025, 12h23
Meninas se divertem e se abraçam.
Em consultório, constatamos que bulimia, anorexia, depressão e automutilação são os transtornos mais comuns entre as meninas.  (Freepik/Reprodução)
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Há algum tempo as comemorações pelo Dia Internacional da Mulher – em 08 de março – passou a ser percebida de maneira diferente. As mulheres, com toda razão, questionaram quais seriam as razões para celebrar, tendo em vista que elas trabalham mais, em múltiplas jornadas, e são menos reconhecidas, seja em lugares de comando nas hierarquias ou financeiramente – sem entrar na terrível questão das violências, físicas ou morais. De todo modo, o 08 de março pode ser uma excelente oportunidade para refletirmos sobre como anda a saúde mental das meninas – crianças e adolescentes –, as mulheres em formação para o amanhã.

Em consultório, notamos que os quadros mais recorrentes são de transtornos alimentares, em especial bulimia e anorexia. O IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) divulgou há algum tempo o resultado do estudo experimental da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), que compara indicadores de comportamento de estudantes do 9º ano do ensino fundamental, jovens entre 13 e 17 anos. A análise compara as quatro edições da PeNSE, dos anos 2009, 2012, 2015 e 2019. É bastante claro o aumento da insatisfação dos jovens com a imagem do próprio corpo na última década. Se em 2009, 17,5% dos estudantes reclamavam de ser gordo ou muito gordo, este número saltou para 23,2% em 2019. Já os que se consideravam magros ou muito magros eram 21,9% e passaram a 28,6%. Os 10 anos que separam a primeira da última pesquisa equivalem justamente à década da ascensão das redes sociais e sua solidificação entre os jovens. Redes como o Instagram, de supervalorização da imagem e da hiperexposição, servem de gatilho para transtornos alimentares, como anorexia e bulimia.

Também é relevante a incidência entre meninas jovens de depressão. De acordo com os números da a Associação Psiquiátrica Internacional para Infância e Adolescência (IACAPAP) em 2019, a depressão afeta, anualmente, cerca de 2,6 milhões de jovens de 6 a 17 anos.

Também é significativo os casos de ansiedade. Segundo o Instituto de Pesquisa de Psiquiatria da USP, estudo com 7 mil crianças e adolescentes, com idades entre 5 e 17 anos, apontou que 26% apresentam sintomas clínicos de depressão e ansiedade. Esta realidade não se limita apenas às crianças de classes altas. De acordo com pesquisa da Unicef em parceria com a ONG Luta pela Paz que ouviu 323 moradores da Maré, com idades entre 19 e 25 anos, 22% afirmam que seu principal desafio é controlar a ansiedade.

Vale lembrar que a ansiedade, em até certo grau, é considerada normal, se for de curta duração, limitada por um estímulo específico do momento. O que a torna preocupante é a intensidade, o tempo de permanência o grau de inabilidade social e o prejuízo funcional que ela traz à criança ou ao adolescente. O diagnóstico de ansiedade torna-se ainda mais premente tendo em vista que a maioria dos transtornos de ansiedade em adultos tem inicio ainda na infância.

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Crescente entre o público jovem do gênero feminino, a automutilação pode ser definida como qualquer comportamento intencional envolvendo agressão direta ao próprio corpo, sem, no entanto, intenção consciente de suicídio. Tal comportamento pode ser repetitivo, chegando, em alguns casos, a mais de 100 vezes em um período de 12 meses. Incomum na infância, tem seu pico de ocorrência na adolescência, como uma estratégia a que o jovem recorre quando tem dificuldade de lidar com emoções que considera desagradáveis e a automutilação serve, justamente, para aliviar a tensão. Nos Estados Unidos, calcula-se que até 360 mil jovens tenham passado pela experiência de automutilação. A incidência é bem maior entre adolescentes do sexo feminino (média de cinco garotas para cada rapaz).

Casos de autismo, TDAH e tentativas de suicídio são menos frequentes entre elas, sendo mais comuns em meninos (cerca de três a cinco vezes mais de ocorrências entre eles), o que confirma que há certo tipo de padrão de comportamento ou de transtorno influenciado pelo gênero do paciente.

A boa notícia é que a ciência não para de evoluir e a maioria destes transtornos pode ser tratado, desde que diagnosticado a tempo e acompanhado por um especialista.

Fabio Barbirato é psiquiatra pela ABP/CFM e responsável pelo Setor de Psiquiatria Infantil do Serviço de Psiquiatria da Santa Casa do Rio. Como professor, dá aulas na pós-graduação em Medicina e Psicologia da PUC-Rio. É autor dos livros “A mente do seu filho” e “O menino que nunca sorriu & outras histórias”. Foi um dos apresentadores do quadro “Eu amo quem sou”, sobre bullying, no “Fantástico” (TV Globo).

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