Pandemia de Covid, 5 anos depois: como estão as crianças e adolescentes?
Aumento do uso de telas é uma realidade, ansiedade e depressão retrocederam

Foi de uma hora para a outra. Praticamente sem aviso prévio, crianças e adolescentes se viram trancados dentro de casa, confinados para evitar o contágio de um vírus sobre o qual pouco se sabia, que surgiu do outro lado do mundo, mas se alastrou rapidamente e em questão de dias batia nas nossas portas. O ano letivo mal havia começado, todos faziam planos para 2020, mas os sonhos e aspirações precisaram ser revistos por força das circunstâncias.
Agora é possível mensurar com maior precisão o impacto de medida tão drástica e sem precedentes na história recente do mundo. No primeiro momento, foi bastante difícil para as crianças lidar com o cerceamento da liberdade – além do uso forçado de máscaras. Acostumadas a praticar esportes, a brincar no play ou na rua, a ir à praia, a interagir com os amigos, tudo isso foi cerceado de forma muito radical. O convívio social na escola também foi prejudicado. Do dia para a noite, as aulas passaram a ser online, desafiando a concentração e a capacidade de foco de alunos e professores a interagirem exclusivamente por telas.
As restrições impostas também foram marcantes para os adolescentes. Na faixa etária em que se inicia a fase de independência, de sair à noite, de exercitar diferentes formas de liberdade – e até mesmo de praticarem a vida amorosa e sexual, a reclusão em casa foi uma ruptura drástica – porém fundamental para o controle da propagação da doença.
Dentre as consequências da pandemia que ainda identificamos em consultório, cinco anos depois, o atraso na fala das crianças menores está entre os mais recorrentes. Sem dúvida, foi uma geração muito prejudicada pela falta de convívio social, especialmente na escola, fundamental para o desenvolvimento linguístico e cognitivo.
Curiosamente, outros comportamentos que assistimos no auge da pandemia, como ansiedade e depressão, naturalmente foram se equilibrando e normalizando à medida em que a vida foi sendo paulatinamente retomada.
O uso de eletrônicos e acesso a telas aumentou significativamente no pós-pandemia. Vejo que os pais ficaram um pouco perdidos em dar limite aos filhos sobre a quantidade de horas que eles poderiam ficar livremente diante de telas, alterando hábitos de consumo até então muito arraigados, como a própria televisão (é bastante raro que os mais jovens usem o aparelho, preferindo o TikTok ou o Youtube, por exemplo). Para crianças entre 10 e 15 anos – portanto entre 5 e 10 anos quando a pandemia surgiu – o excesso de telas ainda é uma questão concreta no dia a dia.
Meia década depois, podemos afirmar, sem dúvida que a principal conclusão da pandemia é a reafirmação de que o ser humano é um bicho social, que precisa do contato e da troca com o outro para evoluir e manter-se saudável. Estimular o convívio de crianças e jovens com seus colegas é uma das melhores maneiras de garantir-lhes saúde mental.
Fabio Barbirato é psiquiatra pela ABP/CFM e responsável pelo Setor de Psiquiatria Infantil do Serviço de Psiquiatria da Santa Casa do Rio. Como professor, dá aulas na pós-graduação em Medicina e Psicologia da PUC-Rio. É autor dos livros “A mente do seu filho” e “O menino que nunca sorriu & outras histórias”. Foi um dos apresentadores do quadro “Eu amo quem sou”, sobre bullying, no “Fantástico” (TV Globo).