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Lu Lacerda

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Jornalista apaixonada pelo Rio

Carioca entrevista mestre iogue Ram Dass em retiro na Índia

"Felicidade é quando não conseguimos identificar a razão", diz o professor

Por lu.lacerda
9 fev 2025, 07h00
fe e ram
Ram Dass e Fernanda Capobianco no retiro indiano (Arquivo Pessoal/Reprodução)
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Fernanda Capobianco, naturopata e terapeuta de Nutrição Integrativa, está em Lonavala, Maharashtra, no centro-oeste da Índia, conhecido pela movimentada capital Mumbai, onde fica até meados de março, para uma imersão de dois meses num retiro espiritual.

A pedido da coluna, conversou com Ram Dass, 27 anos, formado em Filosofia e pós-graduado em Ioga pelo Gordhandas Seksaria College of Yoga and Cultural Synthesis, cujo diploma de pós-graduação em educação iogue é reconhecido pelo governo da Índia. Atualmente é professor assistente de pesquisas e morador do Kaivalyadhama Yoga Institute (universidade, escola e centro de pesquisa científica), um dos mais antigos do mundo, com mais de 100 anos de fundação.

Capobianco está num ashram (comunidade espiritual), fundado por Swami Kuvalayananda Ji (1883-1966), que começou a investigar os efeitos da ioga ainda em 1920 e criou um método que chamou de ioga científico, um dos que levaram à divulgação da ioga no mundo ocidental moderno — ele é considerado um visionário ao perceber que, para sustentar toda sabedoria milenar dos sábios antigos e torná-la conhecida no mundo inteiro, precisaria ter respaldo da ciência.

Embora existam tipos diferentes de ioga, todas se concentram em uma conexão entre corpo, mente e espírito.

1 – Qual foi sua inspiração e como é a rotina no Kaivalyadhama?

Meu pai me inspirou. Ele era faixa-preta de taekwondo; depois de casado, se tornou um iogue e me inspirou a seguir esse caminho. No ashram, estou conectado à chamada hora de Brahma, o período (muhurta) de 1 hora e meia antes do nascer do sol; então acordo às 4h30, bebo dois copos d’água, depois pego flores para colocar no altar, faço alguma limpeza no local, ofereço flores para Deus e começo o ritual religioso Sandhya Vandanam, centrado na recitação do mantra Gayatri (conhecido como o mais completo e poderoso, chamado de mantra da iluminação). Das 7h às 8h, dou aula de ásanas (posturas de ioga) no Ashram; das 8h às 9h, café da manhã, descanso, almoço e sigo para a palestra de Filosofia do Ioga, faço exercícios de respiração e posturas; depois, mais aulas e, às 19h faço a Havan (cerimônia espiritual de purificação com fogo); janto, faço uma caminhada e durmo. A pedido da coluna, ela conversou com o guru:

2 – E o maior ensinamento que o ioga trouxe para a sua vida prática?

Os yama e niyama são preceitos éticos, a base da prática sem a qual nenhum progresso espiritual no caminho do yoga pode ser conseguido. Os yama são o código de ética pelo qual devemos guiar a nossa vida para conseguirmos viver em paz e harmonia com tudo e todos que nos rodeiam; também  devemos aplicá-los à nossa prática diária de ásana para atingir o mesmo sentido de paz e harmonia e para evitar entrarmos em conflito com nós próprios. Procuramos segui-los, voluntariamente e com alegria, sentindo como a sua força positiva nos traz a autodisciplina que nos leva aos objetivos, sendo a razão pela qual praticamos o yoga. Os yama complementam-se; não conseguimos realizar um sem realizar os outros. Alguns deles são o Ahimsâ (não violência), ou ‘não querer infligir nenhum mal a nenhum ser vivo’, o não à violência física, mental e emocional; o Satya (verdade), ser verdadeiro em palavras e ações; Asteya (não roubar); Brahmacarya (continência), que é estar conectado com a pureza da nona alma e prestar atenção na maneira como desperdiçamos ou usamos a nossa energia, dizer não à ganância – se eu tenho três roupas para usar, não preciso comprar mais e aplicar em todas as circunstâncias; a Aparigraha (desapego), não ser possessivo porque o homem tem tendência para acumular bens materiais, desperdiçando tempo e a energia em coisas supérfluas. Não devemos possuir objetos nem os resultados da prática, senão deixamos o ego tomar conta.

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 3 – Existem dificuldades para os estrangeiros se adaptarem à vida no ashram?

Observo muitos desafios: o cultural, a rotina, a alimentação e aprender o ioga de maneira diferente do Ocidente. Aqui eles aprendem que o ioga é um ensinamento para a mente, corpo e espírito. As restrições do ashram podem parecer intimidadoras, mas o interessante é focar no outro lado dessa experiência, porque essas limitações permitem as circunstâncias necessárias para uma total imersão num ambiente quieto e calmo, longe da cidade, o que pode ser transformador depois de um mergulho interior. O ioga é uma jornada de autodescoberta, uma tapeçaria complexa que liga os fios do corpo, da mente e do espírito, profundamente enraizada na religião, mitologia e tradições indianas.

4 – Como é tentar trazer a mensagem do ioga, uma filosofia de mais de 8 mil anos, nos dias atuais? 

Os tempos mudaram, mas as questões e angústias continuam as mesmas, como raiva, luxúria, desejos, tristeza etc. A maneira de falar mudou, mas todos estão buscando a felicidade. Antigamente, as pessoas (jovens e adultos) faziam cerimônias de fogo, cantos de mantras e trabalhos sociais; hoje, vão para boates, bebem e fumam. O problema é que a vida é muito rápida – comida rápida, telefone rápido, roupa rápida e por isso o estresse vem.  O outro problema é que nós temos apenas uma mente, mas, ao mesmo tempo, estamos conectados com os nossos cinco sentidos (olfato, paladar, ouvido, tato e visão), e o homem moderno quer estimular muitos sentidos ao mesmo tempo –  como temos uma mente, ela fica o tempo inteiro confusa, e o estresse acontece. Deveríamos nos conectar com um sentido de cada vez e fazer a mente presente em cada um deles.

 5 – Você tem alguma mensagem para os brasileiros que vão se jogar no carnaval?

As pessoas querem beber, fumar e usar drogas, mas não estão pensando sobre os resultados desses hábitos a longo prazo, por exemplo, você comer uma refeição cheia de gordura e açúcar e sofrer pra digerir no dia seguinte, ou a “ressaca” que traz consigo a depressão etc. As pessoas não querem apenas o alívio temporário da dor e da angústia, mas poder desfrutar do momento presente, confiantes de que estarão seguros no futuro. Existe uma força vinda de uma dimensão mental orientada para o externo que nos puxa para o desfrute do momento sem a devida clareza quanto ao preço de tal escolha. Há um jogo de forças entre o desejo pela evidente satisfação de curto prazo e a sutil, porém profunda, satisfação de longo prazo. Há algumas situações em que ambas podem ser atendidas, mas, em muitas delas, uma exclui a outra. Mas quando olhamos o mundo e encontramos satisfação no conhecimento a partir da observação de um evento cotidiano comum, o ioga chama isso de Buddhi, a camada mais profunda da mente e, ao mesmo tempo, a mais difícil de acessar plenamente. E dela surgem qualidades, como sabedoria, desapego e compaixão. Mas para ter isso, precisamos começar a questionar a velha e fracassada receita da luta por sobrevivência e prazer imediato.

 6 – Qual é o seu sonho nesse mundo iogue?

Primeiro entender a mim mesmo como completo e todas as partes da minha vida; depois espalhar a sabedoria do Bhagavad Gita (livro religioso hindu escrito em sânscrito) para todos e em todos os lugares aonde eu for.
7 – Qual a diferença entre um professor de ioga e um praticante?

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O professor de ioga funciona da boca para os ouvidos do aluno – ele leu algo e ensina para o aluno.  O iogue vai além de ensinar: é uma inspiração no estilo de vida. E você pode conhecer um verdadeiro iogue quando o estresse vem. Ele vai reagir sem ego, sem egoísmo, sem pensar somente no seu próprio benefício.

8 – Qual a mensagem do ioga para as próximas gerações?

Todos querem fazer gol, mas, muitas vezes, não sabemos como. O gol é a liberação. Nós podemos fazer o gol com a ajuda da verdade, a autorrealização e a autoliberação. O recondicionamento acontece através do ioga, dessa filosofia que aprendemos sobre o apego e desapego, e então aprendemos a nos manter neutros em relação a essas polaridades. As duas extremidades são ignorância. O apego a algo ou alguém e gera sofrimento. E se você quer se desapegar de alguém, é porque você ainda está apegado. Isso significa que você não está satisfeito. Podemos observar o exemplo de Vairagya (desapego) em uma flor de lótus, que sempre nasce onde há lama ou lodo: ela se desapega do lodo para se transformar na mais bonita flor.

9 – Qual seria sua definição de felicidade?      

Se a minha felicidade vem de um objeto, isso se chama prazer. E se ela não vem de um objeto, isso se chama felicidade. Felicidade é quando não conseguimos identificar a razão. Uma vez, um cachorro pegou um osso e estava roendo sem parar por uma hora. De repente, a boca começou a sangrar e ele se sentiu feliz porque achou que era sangue da carne do osso que estava roendo, mas, na verdade, era ignorância. Está escrito no Bhagavad Gita (texto religioso hindu): “Sem paz interior, não conseguimos encontrar a felicidade no mundo exterior”.

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