Crônica, por Eduardo Affonso: Não, blagodarya!
"Viagem mesmo, de verdade, pra valer, pra ser digna desse nome, tem de ser sozinho"

“A cada R$ 150,00 em compras você concorre a uma viagem inesquecível de sete dias com destino a Natal – com direito a acompanhante!” – dizia o cartaz, na porta do shopping.
Será que a cada compra de R$ 1.500,00 não dá pra concorrer a um prêmio melhor? Por exemplo… uma viagem a Natal, SEM direito a acompanhante?
Porque viagem mesmo, de verdade, pra valer, pra ser digna desse nome, tem de ser sozinho. Acompanhado você vai lá, passeia, dá uma volta – mas não viaja.
“Viajar (é) perder países / ser outro constantemente”, escreveu o Fernando Pessoa, que sabia como ninguém da maravilha que é poder ser muitos, ser todos.
E não dá para ser outro acompanhado de alguém que te conhece, e vai fazer cara de espanto se você começar a se permitir ser seus outros eus (no caso, seus outros você).
O verbo viajar tinha de ser defectivo, só conjugável na primeira pessoa:
Eu viajo
Tu transitas
Ele se desloca.
Nós nos estressamos (ou deixamos de fazer o que queríamos para acompanhar o/a acompanhante e não perder a amizade)
Vós peregrinais
Eles fazem turismo.
Para viajar de fato, há que deixar para trás os problemas. Ou seja, eu vou, você fica.
Quem vai – um passo adiante da mochila, usando seu passaporte (ou sua identidade) – é uma das suas alternativas, aquela que veio de fábrica com todos os opcionais de felicidade, e que não costuma ser compatível com o dia a dia.
Viajei, uma vez, sozinho, à Bulgária. Não falava a língua (só uma palavra: “blagodarya”, que quer dizer “muito obrigado”). Por duas semanas, não conversei com ninguém, não compreendi nada do que ouvia. Desenhava coisas no guardanapo para pedir comida no restaurante (a dieta ficou bastante restrita, porque não é fácil desenhar uma tarator ou uma shopska) – e não dava nem para apontar no cardápio, porque era tudo em cirílico, ininteligível. Nesse período, meu único interlocutor – meu porto, minha pátria – foi Carlos Drummond, autor de “Farewell”, o livro que carreguei para ler na emergência de bater saudade de mim. Vi turistas em bandos, aos pares, em Koprivshtitsa, em Plovdiv, em Rila, em Nessebar, e senti certa compaixão: Coitados, tão acompanhados!
Procure no dicionário o significado de “viajar”. Tá lá, com todas as letras:
Partir, ir, sair;
Alucinar-se, delirar, desvairar;
Devanear, fantasiar, imaginar;
Sonhar.
Ganhei três cupons no shopping. Não conheço Natal. Pode ser divertido passar uma semana por aqueles lados, comendo caju e tapioca. Descendo duna de esquibunda e sonhando.
Até dá para dormir junto. Mas sonhar – e viajar de verdade – é algo que só se faz sozinho.
