Dia da Visibilidade Trans: “Menino, menina, gay, hétero, bi? Quem eu era?
Diana Conrado, 28 anos, é a nova coordenadora da Diversidade Sexual, pasta da prefeitura, desde meados de janeiro

Desde 2004, 29 de janeiro é reconhecido como o Dia Nacional da Visibilidade Trans
A última edição do dossiê da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), lançado nessa segunda (27/01), mostra que 122 pessoas trans e travestis foram assassinadas no Brasil no ano passado, sendo que cinco eram defensoras de direitos humanos.
Depois do discurso de posse de Donald Trump, presidente dos EUA, os números podem piorar, pois tudo que acontece lá resvala aqui – o republicano reiterou que a “política oficial do governo dos EUA reconheceria apenas dois gêneros: feminino e masculino”, assinou e revogou ordens, incluindo algumas que protegem os LGBT+, como medidas que garantiam proteção contra discriminação e ampliavam direitos de pessoas trans nas Forças Armadas.
Em Brasília, associações trans fizeram o hasteamento da maior bandeira trans do Brasil nesta quarta (29/01) e também um ato em solidariedade aos LGBT+ em frente à Embaixada dos EUA na cidade.
Aqui, a história da advogada Diana Conrado, 28 anos, nova coordenadora da Diversidade Sexual, pasta da prefeitura, desde meados de janeiro, no lugar do estilista Carlos Tufvesson. A própria Diana passou pelo programa Damas, da CEDS, e entrou no mercado de trabalho.
Diana é uma mulher transexual negra, advogada formada pela UERJ. Atualmente cursa pós-graduação em Política e Sociedade pelo IESP/UERJ e Gestão do Poder Legislativo pela ELERJ. Desenvolve pesquisas sobre gênero, sexualidade, política pública e direito. Nos últimos dois anos, foi assessora da deputada estadual Dani Balbi (PCdoB).
A pasta foi criada em 2011 pelo governo de Paes; depois foi extinta na gestão de Crivella e retornou em 2021.
O texto de Diana:
Sou resultado de um relacionamento de pais jovens: ele, pai aos 19 anos, e ela, mãe aos 15. Meus avós paternos eram mais estruturados, muito trabalhadores desde cedo; minha avó, uma pessoa ímpar na minha vida e formação. Ela foi costureira e faxineira por grande parte da sua vida. Meu avô, por sua vez, trabalhava na Marinha do Brasil, acredito que na parte de reparos dos navios e plataformas – estiveram casados até o falecimento da minha avó, que, costumo dizer, foi a pessoa que mais me amou no mundo e mais me motivou a sonhar alto.
Do lado materno, avós separados: meu avô, aposentado da imprensa oficial (trabalhava com as máquinas de impressão), e minha avó, que já fez um pouco de tudo, inclusive cuidar de mim enquanto minha mãe trabalhava.
Meus pais, ambos da classe trabalhadora, se separaram quando eu tinha 6 anos.
Fui criança – brinquei, corri, me ralei. Tentei jogar bola, mas nunca tive talento; soltar pipa também não deu muito certo. Gostava de colecionar bolas de gude bonitas, mas não queria jogar, para evitar arranhá-las.
Na adolescência, fui estudar em uma escola militar. Foi um período importante para minha formação. Lá surgiram os primeiros questionamentos sobre onde eu me encaixava na sociedade. Menino, menina, gay, hétero, bi, andrógino? Quem eu era?
Com ajuda, ainda aos 14 anos, consegui me entender – tive sorte, pois consegui acessar uma psicóloga que me ajudou a lidar com essa fase difícil.
Aos 18 anos, já me reconhecendo como uma mulher transexual, comecei a acessar algumas políticas públicas para a população LGBT+. Assim, conheci pessoas que se organizavam socialmente para pensar estratégias que mudassem a realidade da população LGBT+ carioca. Mais adiante, entrei num projeto chamado PreparaNem, pensado para preparar pessoas em vulnerabilidade social, especialmente, transexuais e travestis para vestibulares.
Em 2018, finalmente realizei o sonho de entrar na UERJ, no curso de Direito, tendo sido aprovada em 1° lugar, no segundo período de 2018, pela reserva de vagas para pessoas negras.
Antes disso, me engajei em organizações sociais que lutam pelos direitos da população LGBT+, local e nacionalmente.
Escolhi o Direito porque queria saber me defender através da lei, bem como lutar contra as injustiças sociais e institucionais.
Logo no primeiro período de faculdade, fui estagiária de um grupo de extensão chamado “Núcleo de Prática Jurídica de Gênero, diversidade sexual e direitos homoafetivos”.
No segundo período de faculdade, fui atuar no maior escritório de advocacia da América Latina, na unidade do Rio; lá permaneci por quase cinco anos, até um pouco depois de me tornar advogada.
Logo que decidi sair, fui convidada para compor o gabinete da deputada estadual Dani Balbi. Fiquei surpresa e muito feliz com o convite. Comecei a trabalhar com a deputada, coordenando o Grupo de trabalho LGBT+, um segmento central para o mandato da deputada para tocar a política e as propostas legislativas acerca da pauta LGBT+. Lá tive a oportunidade de redigir alguns projetos de lei, como o de cotas para a população trans, o selo da diversidade etc.
As pessoas costumam me perguntar como eu conheci a Dani, e a verdade é que eu não me lembro. Acredito que tenha sido das mesas de debate, encontros e eventos sobre a pauta LGBT+. O que lembro é que eu desenvolvi um sentimento de carinho muito grande por ela, mesmo que com pouco contato.
Quando ela foi candidata pela primeira vez, em 2018, lembro que fiz campanha no amor, em todos os lugares que eu podia e para quem eu conseguisse abordar – nem meu professor e atual presidente do Supremo Tribunal Federal escapou da minha campanha: vote Dani Balbi.
Em 2023, porém, foi uma grata surpresa a lembrança e convite quando ela foi eleita.
Hoje me torno coordenadora da Diversidade Sexual da Prefeitura do Rio, indicada pelo PcdoB, esperançosa em fazer a diferença na vida daqueles que precisam de um olhar cuidadoso e forte.
Volto a essa coordenadoria, da qual fui usuária, como gestora. Em 2015, participei de um dos projetos da Coordenadoria da Diversidade Sexual (DAMAS). Esse projeto me inseriu no mercado de trabalho e fez total diferença na minha trajetória.
E hoje é isso que eu quero fazer pelas pessoas LGBT+, políticas públicas que possam impactar suas vidas positivamente, de forma que essas tenham o direito de sonhar com novas possibilidades de vida e bem viver.