Bullying não é uma brincadeira, é uma questão moral
O trabalho de construção moral é um processo de reflexão permanente para que se estruture uma consciência ética para a vida

A suspensão de alunos responsáveis por bullying contra colegas em uma escola de São Paulo, mais do que render manchetes e notícias nas mídias convencionais e nas redes sociais, teve a consequência positiva de chamar a atenção para um problema ético grave que as famílias e a escola precisam enfrentar.
Bullying não é brincadeira de criança ou de jovem. Divertir-se exercendo poder e dominação sobre outras pessoas é coisa séria, que envolve questões morais a serem discutidas pelas famílias e pela escola.
O bullying se manifesta, em geral, contra pessoas rejeitadas pelos colegas por razões perversas e que se tornam alvo de agressões e humilhações de todos os tipos, não necessariamente físicas. Com o ambiente virtual, a agressividade se amplia e se fortalece, e dá ao agressor a ilusão de um certo ‘distanciamento’ do agredido, o que pode conferir mais intensidade aos ultrajes e desconsiderações.
Ultimamente, os filhos ocupam um espaço cada vez maior nas famílias, isto é, participam com sua voz e vontades que são levadas em conta. Alguns podem interpretar mal essa relação próxima dos adultos e acreditar que têm poder e direito de humilhar e maltratar pessoas sem se responsabilizarem porque serão sempre protegidos pelos adultos.
Em inglês existe a palavra ‘entitled’, que cabe bem aqui. Ao pé da letra é “entitulado”, isto é, que tem título, atribuição de nobreza e poder real e absoluto. A palavra, hoje, tecnicamente, significa apenas “ter direito a”, mas carrega a implicação negativa de alguém que se sente excessivamente privilegiado ou que acredita que merece tratamento especial, mesmo sem nenhuma razão. A palavra, então, pode ser entendida como “ser autorizado”, ou “ter o direito” ou “ter o privilégio”, uma significação que faz refletir.
Os jovens precisam aprender a conviver e se relacionar com amigos e colegas, ou com qualquer pessoa. Não podem pensar que têm o direito de humilhar ou de dominar outros com ameaças. Precisam saber que não têm privilégios inquestionáveis e que serão, sim, responsabilizados.
É uma questão ética muito séria, e ainda bem que a escola percebeu e mostrou. Nossa espécie é empática e pressente o desconforto dos outros, se solidariza com os outros. Se jovens não conseguem perceber o sofrimento alheio, é urgente que a capacidade de empatia seja desenvolvida. Se percebem, mas divertem-se com o sofrimento alheio, tem-se uma questão moral séria e preocupante a ser tratada pela família e pela escola.
Não adianta apenas impor castigo. É preciso haver reflexão para que haja mudança interna nos estudantes. Todos precisam conversar uns com os outros, junto com adultos, para que compreendam o que acontece. E não adianta conversar uma vez apenas. É uma prática permanente, em todas as situações de conflito. As turmas têm que ser envolvidas, todos precisam falar, todos precisam ser ouvidos.
O trabalho de construção moral é um processo longo por toda a escolaridade. Não depende de prêmio ou de castigo, mas de reflexão permanente para que se estruture uma consciência ética que vai pautar todas as ações do sujeito durante a vida.