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Esquinas do Esporte

Por Alexandre Carauta, jornalista e professor da PUC-Rio Materia seguir SEGUIR Seguindo Materia SEGUINDO
Pelos caminhos entre esporte, bem-estar e cidadania

Esporte integra singelo manual para desarmar bombas-relógio

Mexer o corpo e a cuca, brincar, respirar, comer e dormir bem, moderar o uso das telas: receita para afastar ameaças à saúde mental

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17 fev 2025, 08h18
Jogadoras em parida de futevôlei
A prática de esportes, como o futevôlei, ajuda a reduzir o risco de ansiedade e outros transtornos mentais (World-Footvolley/Divulgação)
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“Faz café de fogão, pai”, pede a moça menos interessada no sabor do que no efeito da bebida. “Preciso de café pra ficar acordada nas aulas”, completa, com terna naturalidade.

Mal começa a temporada letiva, ela sente a pressão do estudo integral. Concorrerá a medicina no fim do ano.

A futura dermatologista leva vida de adolescente preservada dos boletos. Cinema, namoro, bons amigos. Copo térmico da moda, Raphael Montes na cabeceira, celular grudado igual tatuagem.

Mesmo assim, a ansiedade lhe acena. Pesa nos ombros não propriamente o desassossego existencial ou filosófico instigado pela crise moral mundo afora. A ansiedade que nela e noutros tantos e tantos se infiltra é comezinha. Mora nos detalhes.

Eclode na impaciência automática quando algo parece fugir ao programado, na dificuldade em mergulhar perdidamente numa leitura, em abstrair-se das telinhas, em fechar a porta do armário.

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Sintomas alastram-se sob o compasso das incertezas contemporâneas e dos cativeiros digitais naturalizados com a bênção da ordem econômica. Já atingem quase 30% dos brasileiros, calcula a Organização Mundial da Saúde.

Os crescentes casos de ansiedade extrapolam registros oficiais. Incidem, acentuadamente, sobre jovens entre 18 e 25 anos. Indicam uma epidemia sorrateira, agravada pela automedicação.

A urgência em detê-la impõe uma democratização dos auxílios psicológico e psiquiátrico, sistematicamente negligenciados por ignorância, preconceito, medo. Campanhas de conscientização – nas escolas, universidades, empresas – haveriam de irmanar-se à ampliação e à facilitação dos atendimentos especializados.

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Exercício físico regular também favorece o controle dos nervos, atesta a ciência. Ajuda a evitar ou conter transtornos psicológicos.

A prática esportiva contribui para calibrar o cortisol, hormônio do estresse. Em doses prolongadas, ele castiga a saúde mental e aumenta o risco de diabetes, hipertensão, obesidade, insônia, fadiga, alterações de humor.

Quem se exercita meia hora por dia reduz em 60% a chance de ansiedade, comprovam cientistas suecos e americanos em pesquisa publicada no periódico Frontiers in Psychiatry. O hábito libera substâncias que ativam a sensação de bem-estar: serotonina, dopamina, endorfina.

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A moderação digital revela-se igualmente imprescindível. Além de ansiedade, o vício das telas pode induzir déficit de atenção, hiperatividade, redução de QI, constatam pesquisadores da Universidade Federal de Minas.

Atiçar a cuca com equilíbrio é muito importante. Atividades como ler, pintar, fazer contas de cabeça e palavras cruzadas, tocar um instrumento, jogar cartas e jogos de tabuleiros freiam o declínio cognitivo soprado pelo envelhecimento. Resguardam a memória, o raciocínio, a concentração. Previnem ou retardam demências.

A comunidade médica recomenda ainda janelas à meditação, à desaceleração. Nunca foi tão necessária a mágica de escavá-las na maratona semanal.

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Hábitos saudáveis implicam uma triangulação entre força de vontade, estímulos constantes e adequação à individualidade. Recrutam sabedoria para evitar refúgios traiçoeiros, compreensivelmente mais escalados em tempos cruéis contaminados de boçalidade: o trago, o cigarro, o café, o ansiolítico, cujos excessos nos transformam em bombas-relógio.

O manual para desarmá-las não prescreve soluções mirabolantes. Envolve mexer músculos e neurônios, dormir bem, comer e beber parcimoniosamente, sem concessões a ultraprocessados, sem abusar do açúcar, do sal, da gordura ruim, do álcool. E, claro, arejar o espírito. Malhar, brincar, respirar.

Começa por revalorizarmos a leveza, a harmonia, os laços sociais fora das bolhas. Talvez seja o mais difícil. Talvez bem mais difícil do que resistir à cama, ao sofá, ao podrão da esquina.

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Alexandre Carauta é jornalista e professor da PUC-Rio, integrante do corpo docente da pós em Direito Desportivo da PUC-Rio. Doutor em Comunicação, mestre em Gestão Empresarial, pós-graduado em Administração Esportiva, formado também em Educação Física. Organizador do livro “Comunicação estratégica no esporte”.

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